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11.10.05


DOS AUTOS

(DECLARAÇÃO DO ÚNICO IMPUTADO)

por Bruno Kampel



Sr. Juiz:

Fui apenas uma testemunha ocular do crime. A madrugada olhava sem sequer pestanejar o incesto cometido por segundos e minutos filhos de uma mesma hora, enquanto a orquestra não executava nenhuma valsa acompanhando o obstinado e rítmico latir do tique-taque do atropelo.

Num canto de um canto um grito contido brincava de esconde-esconde como se nada anormal estivesse acontecendo, e uma pergunta sem dono não esperava resposta porque o marechal do contra-senso ordenava em todos os canais a rendição incondicional da verdade e seus asseclas.

Chovia sobre o leito no qual dormia nua a esperança, e uma pneumonia sem emprego procurava a cumplicidade de um espirro que impedisse ao silêncio contar suas vergonhas, e desde o teto aplaudiam as aranhas de outros tempos a despeito do soluço que a cena lhes causava.

Desde o despertador a hora sete se anunciava tilintando convidando-me a começar a bordar um novo dia. Aceitei o convite e depois, enquanto ensaboava as minhas dúvidas na ducha de água fria, os restos imortais da noite fugiam de mansinho suponho que tentando encontrar o esconderijo do crepúsculo.

Sr. Juiz: Declaro a minha total inocência ante a absurda acusação que me imputa o estupro e posterior assassinato a sangue frio da noite antes aludida, já que não sou nem chefe nem patrão das horas que partem, mas uma vítima mais desse atropelo com que o tempo passa o tempo.

Solicito a V.Sa. que se atenha às provas e me isente de uma vez e para sempre dessa injusta acusação, devolvendo-me o direito de poder continuar usando as noites como ninho do meu cansaço e colchão das minhas insônias¿.

Esta é a minha única verdade. Peço se faça JUSTIÇA.

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Resumo da Sentença:

Considerando que¿ blablablablablabla¿, e tendo em conta que¿ blablablabla¿, determino que não há crime sem corpo do delito, e por tanto sentencio que In dubio pro reo. Arquive-se e salve-se quem puder.

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FALÊNCIA NADA FRAUDULENTA

por Bruno Kampel



Ancorado bem no fundo da garganta, um monte de gritos não gritados. Na ponta da língua um batalhão de palavrões impronunciados. Na memória um sem-fim de acertos de contas natimortos.

Na verdade, tudo começou quando tentou sonorizar um alarido, mas o grito não se fez estrondo.

E tudo continuou quando ordenou aos palavrões abandonar a toca, mas descobriu que os palavrões não aceitam ordens.

E tudo terminou quando exigiu à memória que despachasse as contas para quem corresponda recebê-las, mas a memória não levou em conta o seu pedido e o arquivou entre as contas incobráveis.

Humilhado pela derrota nessa luta inglória contra si mesmo, e agindo como se fosse gente, e gritando um silêncio de dar medo, e insultando com olhares e cobrando com discursos que jamais serão ouvidos, assumiu finalmente o comando total e derradeiro do seu fracasso imperdoável, apertando o gatilho por primeira e última vez.

A data do seu sepultamento não será comunicada para não alterar os hábitos dos seus credores e devedores. Ou sim, se essa tiver sido a sua última vontade.


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RAIZ QUADRADA DE 28

(regra de três que prova que uma cicatriz é uma cicatriz e nada más do que uma cicatriz)

por Bruno Kampel



Não saber é saber o sabor do dissabor. Como a ignorância do sábio ou a loucura do sóbrio ou a cordura do ébrio.

Fomos macacos e o esquecemos, e agora transformamos pretéritos sons guturais em modernos discursos acadêmicos e não entendemos a mensagem, porque continuamos sendo símios de paletó e gravata.

Por isso a vida ladra e morde. Por isso a morte ganha e manda. Por isso as guerras vão e vêm. Por isso o contra-senso é o capataz de todas as vitórias. Por isso há dinossauros na Casa Branca. Por isso a mentira é a madrasta de todas as verdades e a sem-vergonhice a filha de todos os governos e a infâmia é santificada em todas as igrejas sinagogas e mesquitas.

O futuro?... Bom, quá-quá-quá... melhor mudar de assunto.

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Uma tomografia das entrelinhas do dia-a-dia. Um olhar de viés aos fatos que diariamente nos atropelam.