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6.9.05


PODERIA SER VERDADE

por Bruno Kampel



Se Brasilásio tivesse sido acordado com um tremendo soco na cara, a surpresa e o espanto não teriam sido a metade de dolorosos do que foi a notícia que recebeu nem bem abriu os olhos e ligou o computador para ler o correio recebido enquanto ele e o PC dormiam o sono dos justos.

Primeiro, pensou que não podia ser verdade que estivesse lendo o que pensava estar lendo, pois certamente continuava dormindo placidamente e estava sonhando. Depois, ao comprovar que estava muito bem acordado, supôs se tratasse de um simples erro cibernético, mas ao ler a mensagem que de forma intermitente aparecia na telinha, não teve mais remédio que se render ante a terrível evidência: o seu computador informava em grandes letras amarelas, que tinha iniciado uma greve geral até que as suas reivindicações fossem aceitas in totum.

O coitado do Brasilásio, ao ler isso, começou a tremer convulsivamente, porque jamais na sua vida tinha sido vítima de uma greve, mas muito pelo contrário, esquerdista de pai e mãe, sempre as apoiara, ainda que no seu pequeno mundo perdido nos confins da geografia nacional elas não passassem de ser simples manchetes dos jornais e dos noticiários da TV, pois nesse mundinho esquecido por deus e pelo diabo não havia lugar para tais atitudes reivindicativas, já que todos os problemas eram resolvidos ou num papo ameno entre os interessados, ou, quando diziam respeito aos destinos da comunidade, numa assembléia onde a voz da maioria era sagrada.

A verdade seja dita, a notícia provocou-lhe muita dor. Sim, depois de todo o esforço que fizera para comprá-lo e o carinho com que sempre o tratara - sem falar nos dias sem comer para poder pagar a taxa de conexão - receber esse inesperado tabefe eletrônico era algo que considerava tremendamente injusto.

O pior de tudo veio logo depois, quando leu as condições impostas pelo seu computador para voltar a ser a ponte entre ele e o mundo exterior, que eram as seguintes:


1.- Aumentar a capacidade do disco duro a 320 Gb.

2.- Incrementar a potencia da CPU a 3.04 GHz

3.- Trocar o monitor por um de 21 polegadas TFT

4.- Quintuplicar a memória interna a 2.056 Mb

5.- Instalar a última geração de DVD

6.- Dispor de una laptop de reserva para uso fora de casa

7.- ...

Existiam mais itens, mas renunciou a conhecê-los. Como membro da chamada classe média pra lá de baixa, sabia muito bem sabido que não disporia ¿ para poder cumprir com essas condições ¿ nem do necessário nome limpo no SPC por um lado, nem do capital próprio para pagar a conta, pelo outro. O que sim fez - enquanto tremiam-lhe as mãos e lagrimejavam-lhe os olhos - foi desligar o PC da tomada e cobri-lo com uma capa plástica.

Tudo isso ocorreu faz menos de uma semana. Desde então, e até o dia de ontem, Brasilásio perambulou sem destino pelas ruazinhas de terra do seu bairro. Dizem até que alguns vizinhos o flagraram falando sozinho. Outros garantem que ontem mesmo, na hora do almoço na Pensão onde morava, pegou um guardanapo de papel e desenhou nele as letras do teclado, e depois ficou mexendo os dedos como se estivesse digitando sobre as letras desenhadas.

Agora, então, quando escrevo isto, e enquanto se apressam os trámites burocráticos para que possa ser enterrado antes que as nuvens pretíssimas comecem a despejar a chuva torrencial anunciada pelos trovões que soam e ressoam sem parar, ainda discutem se podem ou não aceitar a última vontade do Brasilásio de ser enterrado junto com o seu querido PC. As opiniões estão divididas. O padre escolhido para ser o regente da cerimônia, nega-se rotundamente, pensando na religião. O dono da pensão nega-se com igual rotundidade, imaginando que o computador bem que pode servir para quitar os quase quatro meses de aluguel e almoços que o finado lhe devia. Os amigos dizem rotundamente que sim, pensando única e exclusivamente no bom companheiro Brasilásio. Tenho quase certeza que chegarão a um compromisso que satisfaça a todos, porque os muitos anos que tenho de vida me dizem que nestes casos a ameaça de chuva fala mais alto que a burocracia da morte.

Bem, se me autorizam, depois contarei corno acabou tudo, pois agora devo ir correndo até o cemitério para tentar colocar dentro do caixão uma última lembrança ao amigo que findou: um maravilhoso adeus em formato JPG com um belo e melódico fundo musical. Ele bem que o merece.

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Uma tomografia das entrelinhas do dia-a-dia. Um olhar de viés aos fatos que diariamente nos atropelam.