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29.8.03


Faz alguns dias fiquei matutando por que será que temos tanta dificuldade em conviver com as diferenças. E esse matutar pariu não sem dores e com a ajuda de fórceps uma bem nutrida conclusão: à medida em que vamos ficando cada vez mais adultos, ou seja, cada vez menos incultos, quer dizer, cada vez mais doutos, o que significa cada vez mais ocos, vamos reprimindo a capacidade infantil de aceitar que tudo é razoavelmente viável e que nada é definitivamente impossível.
Finalmente, considerei provado sem sombra de dúvidas que a despeito dos sólidos conceitos científicos que o provam e das bem estruturadas teorias do comportamento que o negam, dois bicudos sim se beijam.

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25.8.03


Definir a pátria não é tarefa fácil, pois cada um tem uma idéia diferente sobre ela.
Eu também, e creio que não é muito convencional.
Clique e leia aqui.

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24.8.03


Aqueles que temos o hábito de escrever e/ou ler, aprendemos uma pura e simples verdade: o papel aceita tudo. Aceita tanto um poema de amor quanto uma declaração de guerra. O testemunho desgarrador dos sobreviventes do Holocausto e na página seguinte a tese dos que dizem que Holocausto não houve.

O papel aceita tudo e mais ainda. Os Lusíadas de Camões e Mein Kampf de Hitler. Discursos em defesa da vida e anúncios dos fabricantes de armas. Votos de felicidade e condenas a morte. A verdade e a mentira. A denúncia do crime e a defesa do mesmo.

Mas por sorte o papel não é nem auto-suficiente, nem o principal conteúdo de uma publicação, mas apenas o continente sobre o qual transitam os assuntos; o cenário no qual atúam as idéias; o jardim onde florescem as propostas; o púlpito desde o qual se rezam os discursos.

Lembro como se fosse hoje do momento em que escutei pela primeira vez que "o papel aceita tudo". Aconteceu numa ensolarada manhã de janeiro de 1969 quando o saudoso Mário Lago a pronunciou.

Compartilhávamos um pequeno quarto usado normalmente pelo cavalariço da estrebaria do Regimento Caetano de Faria, no Rio de Janeiro, onde estávamos presos, numa época na qual estar preso era a mehor das duas únicas possibilidades, porque a outra alternativa era estar morto.

Não posso esquecer o momento em que Carlos Lacerda - que completava a trinca de detidos - ao ouvir a frase que o Mário deixara cair sobre o silêncio que imperava, adicionou incontinenti: "Eu que o diga!..." e soltou uma gargalhada que fez relinchar de satisfação aos cavalos que pastavam aos pés da janela da cela.

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Uma tomografia das entrelinhas do dia-a-dia. Um olhar de viés aos fatos que diariamente nos atropelam.