Desconfio que muitas vezes há mais poesia na ausência de poesia do que em aplaudidos versos ou em premiados livros ou em completas bibliotecas.
Sim. Diria que un pedido de ajuda carregado de meias palavras, de lágrimas insinuadas, de gritos contidos, chega mais fundo que Camões e Pessoa junto
con sus formosos e famosos versos de papel e letras.
Aposto que diz mais um silêncio de cumplicidade do que cem mil poemas de felicidade, e emociona muito mais uma dor de carne e osso do que todas as desgraças e alegrias do Cântico dos Cânticos.
Não duvido que sofrer sem palavras ou esperar sentado; que chorar a sós ou rir à toa, rimam mais do que o escrito por todos os gênios da poética e da prosa.
Estou certo que há poesia naquilo que fazemos e também no que deixamos de fazer. Inclusive na intolerância que nos confina na prisão perpétua da nossa inverídica
omnipotência.
Esta mensagem tampouco é poesia, e por isso é o que se diz um verdadeiro poema, porque tanto eu como tu ou como ele, o único que fazemos é somar palavras cujo resultado faça sentido. Quem nos lê é quem decide, porque o leitor é o nosso convidado de honra, o nosso amante de turno, o nosso verdugo.