Muito curioso, sem dúvida. Freei no sinal vermelho, um desses que demoram pouco a mudar de cor. Em menos de um segundo consegui cartografar o território circundante, que a primeira vista compunha-se de quatro esquinas e dois cachorros levando a seus respectivos donos pela coleira.
Apontando o olhar para a janela do apartamento de um dos prédios que formavam o cruzamento, flagrei o perfil de uma velhinha de cabelo branco limpando os vidros, e num giro rápido da cabeça detectei uma criança parada frente à vitrine da loja de eletro-domésticos, quando olhava gulosamente para um computador conversível último modelo, tão moderno na sua tecnologia quanto inalcançável no seu preço.
Mudando aleatoriamente o destino do meu olhar esbarrei sem querer na árvore à minha esquerda, onde alguns passarinhos brincavam de esconde-esconde, e no pedaço de céu que completava o panorama, um par de nuvens recém nascidas choramingavam uma garoa fininha que se acomodava sem pressa sobre o pára-brisa do meu carro.
Bastante bucólica a paisagem. Pena que tudo mudou quando de supetão, e avançando o sinal vermelho, atropelou-me uma vetusta verdade que não sei se saiu da esquina da vida, da curva da experiência ou do fundo da névoa do tempo. Estava escrita com o sangue de muitos, de todas as raças, de todos os credos, e dizia, em letras garrafais: "a violência que é combatida com violência ainda maior, antes de morrer pelo efeito das armas carregadas de vingança, dá à luz, num parto dolorosíssimo, a milhões de germes de violência inimaginável, que rapidamente se instalam no desnutrido código genético dos povos oprimidos ou saqueados ou explorados."
Foi nesse exato momento - justo quando as idéias começavam a ficar realmente claras - que o sinal abriu. Apertei então o botão mental de Guardar como... sim, o tal do Save as... e acelerei a caminho da verdade nua e crua, onde as manchetes dos jornais me esperavam sentadas nas primeiras páginas da realidade.
Foi há tanto tempo!... Lembro muito bem dos minúsculos detalhes. Dos cheiros imperceptíveis. Dos acordes desafinados. Dos olhos opacos das mulheres sem rosto.
Sim, e agora, sem pedir licença, a pianista do bordel senta-se na minha imaginação e começa a dedilhar os acordes de Bésame mucho.
Enquanto o bolero invade a pele dos ouvintes e o chofer de caminhão começa a roer as unhas de tanto tesão armazenado, eis que espiando desde um velho quadro pendurado numa parede manchada de Tempo e incontinência, o espírito do antigo proprietário do velho palacete lança carícias francesas às costas seminuas da pianista, e esta, sem sequer perceber os dedos que a visitam sorrateiros, agoniza em cada frase musical que a sua sensibilidade borda no teclado de renda com que a noite veste suas vergonhas.
Minha memória - incorruptível - instala os ecos de um tango sentimental, ao som do qual danço sòzinho a lembrança de outras noites.
A pura náusea. O amanhã sem amanhã. Prepotência de poucos gerando impotência de quase todos. Mundialização da privatização, concedendo-se o nihil obstat ao desenfreio do poder frente ao não-poder honoris causa dos que sempre pagam a conta do banquete alheio.
O tema é difícil, mas...
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