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28.6.03


Muito curioso, sem dúvida. Freei no sinal vermelho, um desses que demoram pouco a mudar de cor. Em menos de um segundo consegui cartografar o território circundante, que a primeira vista compunha-se de quatro esquinas e dois cachorros levando a seus respectivos donos pela coleira.
Apontando o olhar para a janela do apartamento de um dos prédios que formavam o cruzamento, flagrei o perfil de uma velhinha de cabelo branco limpando os vidros, e num giro rápido da cabeça detectei uma criança parada frente à vitrine da loja de eletro-domésticos, quando olhava gulosamente para um computador conversível último modelo, tão moderno na sua tecnologia quanto inalcançável no seu preço.
Mudando aleatoriamente o destino do meu olhar esbarrei sem querer na árvore à minha esquerda, onde alguns passarinhos brincavam de esconde-esconde, e no pedaço de céu que completava o panorama, um par de nuvens recém nascidas choramingavam uma garoa fininha que se acomodava sem pressa sobre o pára-brisa do meu carro.
Bastante bucólica a paisagem. Pena que tudo mudou quando de supetão, e avançando o sinal vermelho, atropelou-me uma vetusta verdade que não sei se saiu da esquina da vida, da curva da experiência ou do fundo da névoa do tempo. Estava escrita com o sangue de muitos, de todas as raças, de todos os credos, e dizia, em letras garrafais: "a violência que é combatida com violência ainda maior, antes de morrer pelo efeito das armas carregadas de vingança, dá à luz, num parto dolorosíssimo, a milhões de germes de violência inimaginável, que rapidamente se instalam no desnutrido código genético dos povos oprimidos ou saqueados ou explorados."
Foi nesse exato momento - justo quando as idéias começavam a ficar realmente claras - que o sinal abriu. Apertei então o botão mental de Guardar como... sim, o tal do Save as... e acelerei a caminho da verdade nua e crua, onde as manchetes dos jornais me esperavam sentadas nas primeiras páginas da realidade.



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23.6.03


Foi há tanto tempo!... Lembro muito bem dos minúsculos detalhes. Dos cheiros imperceptíveis. Dos acordes desafinados. Dos olhos opacos das mulheres sem rosto.
Sim, e agora, sem pedir licença, a pianista do bordel senta-se na minha imaginação e começa a dedilhar os acordes de Bésame mucho.
Enquanto o bolero invade a pele dos ouvintes e o chofer de caminhão começa a roer as unhas de tanto tesão armazenado, eis que espiando desde um velho quadro pendurado numa parede manchada de Tempo e incontinência, o espírito do antigo proprietário do velho palacete lança carícias francesas às costas seminuas da pianista, e esta, sem sequer perceber os dedos que a visitam sorrateiros, agoniza em cada frase musical que a sua sensibilidade borda no teclado de renda com que a noite veste suas vergonhas.
Minha memória - incorruptível - instala os ecos de um tango sentimental, ao som do qual danço sòzinho a lembrança de outras noites.

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22.6.03


A pura náusea. O amanhã sem amanhã. Prepotência de poucos gerando impotência de quase todos. Mundialização da privatização, concedendo-se o nihil obstat ao desenfreio do poder frente ao não-poder honoris causa dos que sempre pagam a conta do banquete alheio.
O tema é difícil, mas...
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Uma tomografia das entrelinhas do dia-a-dia. Um olhar de viés aos fatos que diariamente nos atropelam.